O clima e as pastagens: como utilizar para aumentar a produtividade?

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Lembro de quando eu era mais novo, assistia o Jornal Nacional com meu pai e ele sempre me mandava ficar quieto na hora da previsão do tempo. Meu pai é agricultor e ele utilizava as previsões para saber em que ele poderia trabalhar no outro dia. Sempre pensava também em como a previsão climática poderia afetar na produtividade.

Me intrigava muito, de verdade, que estávamos sempre à beira de uma quebra. Ficávamos literalmente torcendo para que tudo desse certo nos eventos que não podíamos controlar, como a chuva.

Mais tarde, já na escola de agronomia, descobri que podíamos calcular com uma boa dose de precisão, a estimativa de produtividade, conforme os eventos que iam ocorrendo durante a safra.

Entendi também que, o que trazia muita agonia para nós era, além da possibilidade de não ter lucro, não saber o que esperar da produção. Já que as condições climáticas estão aquém do nosso controle, saber pelo menos o que esperar pode diminuir essa angústia.

Saber como utilizar dados meteorológicos a seu favor é uma grande vantagem. O domínio dessa técnica permitiria reduzir a imprevisibilidade da produção. Dessa forma, o planejamento pode ser tornar bem mais preciso

As forrageiras, de forma geral, pertencem ao grupo de plantas C4. Esse grupo tem como característica uma resposta direta da intensidade luminosa com a taxa fotossintética, ou seja, rendimento. Para um melhor aproveitamento da luz é preciso que as plantas tenham folhas. Por isso da importância de manter um bom resíduo após pastejo para acelerar o crescimento do próximo ciclo.

Quanto maior a taxa fotossintética, maior também será o consumo de água pela planta, sendo que a principal forma de distribuição de água no solo, é a chuva. Nesse contraponto, as chuvas intensas, como as que ocorrem no verão brasileiro, limitam a radiação solar que chega às superfícies pela presença de nuvens. De forma clara, o melhor cenário em que os pecuaristas podem sonhar é chuva à noite e dias quentes, sem nuvens.

De acordo com as nossas pesquisas, a pastagem no auge do crescimento pode ter um acúmulo de biomassa superior a 200 kg/dia

A temperatura possui uma relação complexa com a desempenho da planta, já que afeta de forma diferente conforme a fase de crescimento da planta e o tempo em que ficou exposto a essas temperaturas.

Estudo de caso

Em uma das fazendas monitoradas pelo Pasto Sempre Verde, em Minas Gerais, observando a produtividade média de 35 piquetes ao longo do ciclo, obteve valores decrescentes desde o início do monitoramento, em janeiro. Cada piquete tem um tempo de ocupação de um dia e os ciclos tiveram uma média de retorno de 36 dias. Toda a área com irrigação plena por aspersão.

Produtividade média de capim (t/ha MS) ao longo de 5 ciclos
Radiação acumulada, precipitação acumulada e temperatura mínima e máxima média ao londo dos 5 ciclos

Comparando os dois gráficos, me parece claro que a radiação teve maior impacto na produtividade que os outros fatores climáticos

Observe nos ciclos 1 e 2 que, mesmo com o aumento da disponibilidade hídrica, a produtividade média caiu junto com a radiação acumulada nesses períodos. Os ciclos 3 e 4 passaram por condições climáticas similares e obtiveram produtividades médias praticamente iguais: 3,7 e 3,6 t/ha. O ciclo 5, com uma combinação de condições desfavoráveis, obteve a menor média de produtividade. Em um sistema de produção de sequeiro, é provável que não fosse possível a exploração do pasto nesse período. Na nossa simulação, a produtividade média sem a irrigação foi de 1,2 t/ha.

Até aqui ok, mas como posso usar dessa informação?

Os sistemas a pasto tem um fator que dificulta muito o manejo que é a estacionalidade. Como vimos, a produção de forragens é muito variável conforme a época do ano. A boa notícia é que com um acompanhamento de dados climáticos é possível prever essa variação. Essa é uma forma muito prática de utilização a previsão climática

Sabendo da capacidade de produção dos seus pastos, podemos manejar de forma mais inteligente a dieta dos animais

O que é possível realizar sem grandes dificuldades, é acompanhar a produtividade dos pastos e sua relação com a radiação acumulada, a temperatura mínima e a precipitação.

Nesse cenário apresentado, por exemplo, se a radiação entre os meses de fevereiro e março do próximo ano estiverem abaixo do que foi verificado nesse ano (700 MJ/m²), é provável que a produtividade se reduza na mesma proporção, caso outras variáveis se mantenham constantes. Esse mesmo monitoramento pode ser realizado para as outras variáveis.

Informação é poder. Nesse caso ter informação de forma antecipada pode facilitar o planejamento, além de reduzir custos.

Sabendo a produtividade dos pastos em cada período, é possível ajustar a quantidade de animais que serão mantidos dentro da fazenda

É possível também montar estratégias como a diferimento de pastagens, a produção de silagem ou feno, o aluguel de pastos, a sobressemeadura ou a irrigação. Tudo isso para aproveitar ao máximo todo o potencial que as gramíneas tropicais têm para oferecer em nossas terras.

Concorda, discorda ou tem mais informações relevantes para colaborar? Comente aqui e compartilhe com quem possa interessar. A ideia é realmente gerar uma discussão em torno do tema!

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Fábio Makoto Okuno
CEO – Pasto Sempre Verde

2 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo texto, Fábio. Muitas vezes atribuímos à chuva todo sucesso ou insucesso da lavoura e, como apresentado no texto, outras variáveis climáticas tem tanta importância ou mais que a chuva. Daí a importância da observação, experimentação e mesmo a modelagem para prover informações que ajudam o produtor no melhor planejamento de sua lavoura. Parabéns pela clareza nas informações apresentadas. Abçs

    • Obrigado pela mensagem Minella. É isso mesmo, a radiação gera o potencial produtivo da planta. Chuva e demais variáveis são fatores que limitam esse potencial. Tem muita gente que coloca a irrigação como solução para tudo, quando na verdade ele é apenas uma, dentre dezenas, ferramenta para o manejo da lavoura.

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